Diante da avalanche de demandas judiciais envolvendo profissionais da área médica, e da aparente perda de prestigio de profissionais que outrora receberam adjetivos colocando-os como verdadeiros anjos, abnegados sacerdotes que sacrificavam a vida em favor dos enfermos emissários de Deus na terra, e que agora são execrados publicamente, têm suas vidas profissionais e pessoais invadidas e aniquiladas, representando muita das vezes o bandido que roubou a vida ou a saúde de uma pessoa querida, passamos a refletir sobre as possíveis causas da perda da aura de benignidade que sempre envolveu aqueles profissionais.
Teriam mudado os médicos, acaso já não existiriam mais aqueles que abandonavam as esposas nos leitos das madrugadas, percorrendo em lombo de animais grandes percursos para salvar uma vida ou minorar o sofrimento alheio? não sobraria um único médico disposto a inocular-se com o vírus a fim de encontrar a cura da enfermidade? não mais estariam dispostos a sofrer moléstias pelos efeitos da radiação com o único objetivo de dar-se em prol da vida alheia?
Desgraçadamente restariam unicamente aqueles que fazem da atividade uma mera atividade mercantil, como se a vida fosse uma mercadoria a ser comprada e vendida nos balcões dos hospitais? a tecnologia e as facilidades da vida moderna teriam causado modificações negativas naqueles profissionais? Ou, ao contrario, o povo já não aceita mais sofrimentos e identifica no médico a causa de suas perdas? A complexidade das doenças já não estaria encontrando respostas proporcionais? qual ou quais as causas da mudança?
Curiosamente com a evolução cientifica, tecnológica, que deveria trazer resultados melhores, pela possibilidade de diagnósticos mais precisos, de técnicas menos invasivas, o fenômeno que se verifica é que apesar do aumento da longevidade, cada vez mais pessoas estão insatisfeitas com o resultado de atendimentos médicos, inconformadas com a perda de entes queridos, clamando por justiça e buscando uma reparação não só pecuniária contra o profissional que até bem pouco tempo representava a esperança de salvação para a vida da pessoa perdida, mas buscando impor ao médico um sofrimento que possa ser equivalente àquele que lhe foi imposto.
Refletindo sobre tais questões, fui repassando na memória as histórias das vidas salvas e das vidas perdidas, e de como profissionais que atuam em áreas cuja circunstâncias determinam a tomada de decisão imediata e que fará a diferença entre a vida e a morte, caminham perigosamente sobre uma linha que poderá transformá-los, de hora para outra, em heróis ou bandidos, o que depende, muita das vezes, não só do conhecimento técnico, do espírito de renúncia, da vontade ou do querer do médico, mas da sorte de ter um resultado positivo ou negativo.
Lembrei-me de um determinado médico, cirurgião, que em um procedimento cirúrgico, ousou arriscar a utilização de uma "técnica" inovadora, utilizou um adesivo, super bonder, para estancar uma hemorragia. Deu sorte, virou herói, foi entrevistado pelo Jô Soares, recebeu o agradecimento da família, o reconhecimento de seus esforços. Mas, infeliz daquele profissional se sua tentativa, única e desesperada para salvar a vida daquela pessoa, exauridos todos os expedientes técnicos, tivesse malogrado, teria ele imediatamente se tornado um bandido, estaria lançado ao catre, processado pelo Ministério Público, dilapidado seu patrimônio para custear sua defesa e pagar indenizações, ganharia as manchetes já não como herói, mas como bandido, e pior, se tornaria indigno, envergonharia a si e a família, acabaria sem possibilidade de exercer a profissão escolhida.
Se fosse dado a qualquer um de nós a possibilidade de escolha entre a vida, ainda que mediante a utilização de meios não rigorosamente científicos e mediante grande risco, ou a morte, seguramente todos escolhriamos a vida. Então qual a justificativa para que a morte, ainda quando não se tenha a certeza de eventual erro médico, ou mesmo quando se tenha a certeza de que todos os esforços e técnicas disponíveis tenham sido empregados, derrame sobre a categoria médica a revolta, a ira, o clamor por justiça que, na maioria dos caso, se reveste de verdadeiro pedido de vingança?
Mais curioso ainda é perceber que os enfermos e seus familiares buscam o médico, mas buscam também, e invariavelmente, a cura pela fé, no que estão certos. Entretanto, quando acham a cura para suas moléstias atribuem a cura a Deus, Jesus, Alá, Maomé, Buda ou outra divindade a quem tribute sua fé, mas quando, infelizmente, aquele doente vem a falecer, o causador de sua morte já não seria a divindade com sua vontade onisciente e onipotente, mas o médico com sua dimensão humana, como se fosse ele quem tivesse impedido a divindade de agir.
Por mais absurdo e ilógico que seja o raciocínio, a única conclusão possível é a de que naquele momento, o que reclama a perda do ente querido, ou está reclamando contra a vontade da divindade, e assim vacilando em sua fé, embora não queira admitir. De outra forma, teria que admitir que está colocando o médico em posição superior a da própria divindade, que teria o poder de curar, mas que teria sido impedida de fazê-lo pelo médico.
Penso que é licito concluir que, em verdade, o médico não perdeu prestigio, mas ganhou. Se antes era comparado a um anjo, agora se espera que seja um Deus.
Por igual é lícito também concluir que nunca deixou de existir aquele médico que exerce a profissão como um sacerdócio, já que se antes renunciava ao conforto, a riqueza e a saúde, em busca de um ideal, agora se encontra diariamente diante da necessidade de tomar uma decisão que poderá representar a escolha entre ser herói ou bandido, entre ser médico ou louco, uma renúncia de valores muito maiores.
Rendo assim minhas homenagens àqueles que dedicam suas vidas aos outros, tomando diariamente a decisão de arruinarem ou não as suas próprias vidas pela incompreensão humana, e o faço na pessoa de meu irmão Silvio José Rodrigues Coelho, que não é um Deus, não é um herói não é tampouco um bandido, um monstro ou um louco, mas simplesmente um ser humano, um MÉDICO.
Meus sentimentos, meus queridos: Luiz Otávio Rodrigues, Janine Rodrigues, Otávio Coelho Colli e Otacílio José Coelho Colli.
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