Com os recentes, e lastimáveis, eventos que vitimaram centenas de pessoas por todo o Brasil, em decorrência das chuvas, o que se viu foi a criação de uma corrente de solidariedade, na tentativa de minorar as perdas materiais daqueles que sobreviveram a catástrofe.
Todas as organizações civís, religiosas, os meios de comunicação, e individualmente cada um que ficou sensibilizado com a situação daqueles desafortunados, apelaram ou atenderam ao apelo e imediatamente uma montanha de alimentos, roupas, brinquedos, medicamentos e demais itens, foram chegando e sendo distribuídos, em atitude realmente louvável.
Ocorre que, mesmo sendo a atitude, louvável, não podemos deixar de pensar quão curiosa é a atitude humana em relação ao seu semelhante.
Refiro-me a absoluta indiferença com que olhamos diariamente para as várias, e não menos aviltantes, desgraças decorrentes da miséria humana, que nos cercam, que convivem conosco no nosso local de trabalho, no nosso meio social, no seio da nossa família, na nossa própria casa.
Refiro-me àquelas pessoas vitimadas pelo descaso, pela desesperança, pelo desamor, pela indiferença, pela solidão, e a quem negamos muitas das vezes uma palavra, um gesto, um olhar atento que poderia fazer toda a diferença na história de vida daquele ser humano.
Refiro-me à atitude mesquinha que adotamos quando reclamamos do poder público que faça alguma coisa pelos desfavorecidos quando nós mesmos não estamos disposto a fazer um mínimo.
Refiro-me a miopia que nos impele a achar que é suficiente asfaltar os morros e iluminar as favelas, ou alimentar as pessoas, acreditando que tais providências são suficientes para que se tenham dignidade.
Refiro-me a surdez que nos acomete quando achamos que dedicar um pouco do nosso tempo para ouvir o outro é perder tempo, porque acreditamos que sabemos tudo o que o outro tem para dizer, acreditamos que sabemos, sempre, exatamente do que ele precisa.
Refiro-me a total falta de sensibilidade para entender que as razões do outro não são iguais às nossas, para entender que cada um é um ser humano único, em estágio evolutivo diferente, mas um ser humano sempre.
Refiro-me a completa cegueira que temos, ou que intencionalmente criamos, e que determina a necessidade de que uma grande tragédia ocorra para que possamos enxergar o outro, para que possamos exercer a solidariedade, quando negamos à centenas de pessoas a mesma solidariedade, apenas pela incapacidade de enchergarmos as suas tragédias.
Curiosa a solidariedade que exercemos, e que achamos suficiente, quando somos forçados a enxergar aquilo que a todo momento está bem diante de nossos olhos, mas que só encaramos quando nos é mostrado sob a lente de aumento da tragédia coletiva, esquecendo que as tragédias coletivas são a somatória das tragédias individuais.
SEMPRE ME ENCANTOU A SUA VISÃO CLARA E SEM RODEIOS EM TODAS AS SITUAÇÕES...
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